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Texto:
A Barganha
Na Idade Antiga, em meados do século III a.C. (300 a.C. - 201 a.C.), existia um reino chamado Felrin, um aglomerado de comércios, casas e portos. Neste lugar predominava a honra e a justiça, os habitantes tinham rigoroso respeito pela lei e pelas pessoas ao seu redor, aqueles que infringiam a lei eram expulsos do reino. Todos que eram banidos viajavam para bem longe de Felrin, até que começou-se a formação de um novo império: Nothingard. Nele vivia a escória, a desonra e a vergonha, onde seus exércitos eram conhecidos por serem assassinos a sangue frio, tinham um certo prazer pela morte alheia. A lenda diz que os descendentes de Nothingard estão fadados a essa tendência, um destino amaldiçoado.
No entanto, no ano de 260 a.C., uma mulher habitante deste império teve um filho, que desde menino incomodava-se com esse tal "destino", seu nome era Balthazar. Assim como Felrin, Nothingard tinha suas leis e políticas a serem seguidas, porém elas eram completamente opostas à virtude esperada. Por exemplo, todos os homens ao atingir a idade adulta deveriam tornar-se soldados prontos a seguir qualquer ordem e matar qualquer pessoa. Balthazar sendo mais um entre eles, tornou-se, contra sua vontade, mais um malfeitor.
Um ano depois de ter destruído inúmeros vilarejos e comunidades sem motivo algum, já estava farto de tanto sangue inocente derramado. Durante algum desses ataques, um deles envolvia uma biblioteca onde encontrou um livro velho e retalhado, o qual lhe chamou a atenção e escondeu consigo. Mas por que esconder? A verdade é que qualquer coisa que não influencia-se você a ser um matador, era negado perante as leis de Nothingard.
Ainda assim, Balthazar o lia todas as noites antes de dormir, nele era mencionado a vida após a morte, juntamente com a palavra "paraíso". Também logo encontrou as respostas que de certa forma explicavam aquele desconforto que ele tinha com a matança, com isso concluiu que sua entrada no "paraíso" já estava corrompida e talvez não houvesse esperança. Com muita frustração, repudiou sua família e seu império, abandonando tal estilo de vida homicida e seu posto como soldado, tendo fé que encontraria uma maneira de resgatar sua alma.
Dito isso, tornou-se um desertor, caminhou e escalou várias montanhas até o reino Felrin, o único lugar que talvez pudesse oferecê-lo ajuda, porém também não era conhecido por receber forasteiros de braços abertos, ainda mais vindos de Nothingard. Mesmo assim, ele não podia desistir de sua redenção, não agora. Com arrojo e audácia pisa nas terras do reino e clama vir em paz. Antes mesmo de ser rendido, ajoelha-se com as mãos na cabeça e pede para ser levado até o rei.
Balthazar nunca foi um guerreiro de honra ou proeminência, isso era incontestável, mas segundo o Rei talvez ainda houvesse um pingo de esperança para ele. Recentemente uma garota, Verônica, filha de uma camponesa, havia sido raptada durante um ataque feito por soldados de uma outra facção inimiga. Não foi organizado nenhum resgate pois não podiam arcar com a perda de mais guerreiros, ainda mais por uma só pessoa. O Rei sendo sábio, aproveitou-se da situação e instruiu ao guerreiro que se ele obtivesse êxito resgatando esta garota, sua alma estaria salva. Sem tardar, aceitou o desafio.
Após alguns dias de cavalgada, chegou ao seu destino: uma masmorra negra repleta de soldados. Balthazar não tinha um plano de entrada ou saída, ou a mínima ideia de como seria lá dentro, mesmo assim, não hesitou em tentar a sorte: libertou seu cavalo de volta para reino para não ser suspeitoso, mas de nada adiantou, pois no decorrer da infiltração foi visto por um guarda que alertou as tropas, eram muitos para enfrentar… logo foi rendido e levado para um calabouço, onde seria interrogado pelo líder dessa divisão. Após ser acorrentado pelas mãos, o líder curioso pergunta qual seria seu verdadeiro objetivo para arriscar-se em uma entrada suicida como essa, Balthazar responde que si mesmo já era um homem morto, apenas em desespero pela sua alma. Rapidamente, o líder deduz que isso se tratava de nada mais nada menos do que uma missão de resgate pela garota e com isso escapa-lhe algumas risadas. Ele explica para o guerreiro que uma alma não pode ser salva se seu suposto ato de nobreza está sendo feito por ninguém além de você.
Sua pele fica pálida e sua expressão muda completamente… aquele olhar de determinação, torna-se medo e tristeza. Ele é deixado sozinho no silêncio e escuridão do calabouço por horas… durante esse tempo, pondera sobre o fato de que seu egoísmo seria o fator da perdição de sua alma e a morte de outra vítima inocente, ele simplesmente não podia conviver com aquilo, então não desistiu de sua missão, mesmo sabendo que salvá-la não iria levá-lo ao céu.
Logo planejou uma saída com as poucas forças que lhe restavam, no momento em que um guarda vinha trazê-lo alimento, deixou-o inconsciente ao derrubá-lo com suas pernas que estavam soltas, arrastou até si próprio o molho de chaves que o soldado portava e soltou as correntes. Libertado, procura pela prisioneira, andando cautelosamente pelos corredores molhados da masmorra, até que finalmente encontra-lá: estava acorrentada em um calabouço similar. Com as chaves em mãos, destranca a porta de ferro e as correntes, a expressão de Verônica enche-se de felicidade e alívio ao compreender que aquilo era um resgate.
Prontos para bater em retirada, Balthazar apanha as roupas do guarda nocauteado anteriormente e disfarça-se entre os demais, pretendendo levá-la para execução a mando do capitão. Cruzando com vários soldados, vagam pela masmorra ansiosos por uma brecha, até que encontram um desvio para o estábulo, onde teriam cavalos para escapar. A garota sobe em um deles, no entanto eram pelo menos dois dias até chegarem em Felrin, não podiam permitir que fossem seguidos até lá, iriam morrer com certeza e Balthazar sabia disso.
Assim viu que não teria como ambos saírem e chegarem a salvo, além disso, sua alma já estava condenada de um jeito ou de outro, então decidiu que ficaria na masmorra para atrasar os guardas durante a fuga da garota, mesmo sabendo que não tinha chance alguma contra eles, mas se ele conseguisse pelo menos fazer algo que não fosse por si mesmo, teria valido a pena.
A moça em negligência, exige que o homem vá junto, não deseja que ele dê sua vida pela dela, mas de nada adianta. O guerreiro faz com que o cavalo corra em direção à saída antes que a garota pudesse reagir, e fica para trás. No momento em que ela saí pelo portão, Balthazar corta as cordas para que o mesmo se feche e não possa mais ser aberto, sendo assim, luta até a morte.
Dois dias depois, Verônica foi capaz de chegar em Felrin e retornar para sua mãe, que mal acreditava em sua volta. O Rei se surpreende ao ouvir a história contada pela garota, testemunhando que o guerreiro havia se sacrificado por alguém que mal conhecia, não era algo esperado vindo de alguém que costumava tirar vidas.
Não se sabe ao certo o que realmente tenha acontecido com sua alma, alguns dizem que ela tenha ascendido aos campos Elísios, pois ele já não estava mais tentando resgatar a si mesmo quando trocou sua vida por outra. Já outros dizem que ela tenha perdido-se na escuridão, dado que suas más ações foram superiores às boas. De um jeito ou de outro, esta história se repercutiu por muitos anos, recordando diversas sociedades a não fazerem coisas por outras pessoas com o intuito de receber algo em troca.